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terça-feira, abril 03, 2007

Quem é hipócrita, Presidente?

Em recente lançamento de um plano de combate a doenças sexualmente transmissíveis (DST), o Presidente Lula, mais uma vez falando para seu público, achou por bem misturar hipocrisia, Igreja, sexo na adolescência, educação sexual e outros assuntos em um discurso bem ao seu estilo: cambaleante e confuso.

Na boca de uma pessoa qualquer do povo em uma discussão de botequim ou em uma corrida de táxi, um discurso destes tem o efeito de evidenciar desconhecimento de assuntos que são extremamente delicados, mas as conseqüências de tal ato são bem reduzidas devido tanto à limitação de público quanto à ligeireza característica de tais conversas. Ninguém levará a sério um barbeiro que, finalizando um corte, falasse uma besteira aqui ou acolá.

Na boca de um presidente da república, que discursava frente ao povo e à imprensa quando do lançamento de uma política pública, fica evidente tanto o desconhecimento sobre assuntos importantíssimos quanto a falta de decoro para com instituições caras à maior parte da população brasileira. Em casos assim, a gravidade das conseqüências acompanham a importância da figura pública que deu tais declarações. Neste caso, esta figura era a do chefe do Poder Executivo. Apesar de este governo já ter deixado por inúmeras vezes claro que seriedade e honestidade não é o seu forte, tais declarações são para serem levadas bem a sério.

Que mais uma vez o presidente demonstrou que é um inconseqüente -- para se dizer o mínimo --, não resta dúvidas. Porém, é importante que nos atenhamos não somente às palavras escolhidas, mas também ao momento em que foram proferidas.

Ao acusar de "hipócritas" aos que não compartilham de seus distorcidos ideais sobre como combater a gravidez precoce ou a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, faltou ao presidente o bom hábito de fundamentar o que diz, coisa, aliás, a que ele não é lá muito chegado. Tomando-se a Igreja como exemplo segundo a visão de "hipocrisia" de Lula, cabia ao presidente provar que esta instituição prega hoje em dia algo diferente do que fez no passado, ou então que esta simula ou falseia seus ensinamentos enquanto tem uma prática bem diferente.

Rechaçando totalmente tal acusação, o presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, da CNBB, Dom Rafael LLano Cifuentes, divulgou uma declaração 2 dias após o discurso do presidente. Nesta podemos ler:

"(...)

A posição da Igreja é clara. Sempre o foi. Não mudou, nem mudará.

(...)

Não somos hipócritas. Nem o fomos. Nem o seremos. Somos coerentes."



Há a possibilidade de que o presidente não saiba o que é hipocrisia... Isto não é para ser descartado, mas para ter uma real idéia do que é hipocrisia bastava ao presidente olhar para os lados, para aqueles que o cercam. Tivesse feito isto, o presidente poderia ter visto seu partido e seus correlegionários serem eleitos sob um discurso moralista e, quando chegados ao poder, darem-se a práticas corruptas que deixaram casos passados parecendo pequenos delitos.

Isto é hipocrisia, presidente.

Um outro exemplo de hipocrisia, o presidente poderia buscar em suas próprias atitudes em relação ao aborto. Se puxasse um pouco pela memória, o presidente veria que ele próprio lançou, em dezembro de 2004, um "Plano Nacional de Política para as Mulheres", que, em seu item 3.6, coloca como prioridade

"3.6. Revisar a legislação punitiva que trata da interrupção voluntária da gravidez."

Isto, traduzido em linguagem clara e direta, o que é evitado por muitos, quer dizer o seguinte: "procuraremos a liberação do aborto".

Para atingir esta prioridade, o presidente deixou a cargo do Ministério da Saúde e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres a criação da Comissão Tripartite que seria responsável pela elaboração de proposta para revisão da legislação punitiva do aborto. Esta comissão atuou de 1/04/2005 a 1/08/2005. Em um surpreendente caso de eficiência governamental, os trabalhos da comissão atingiram seu objetivo de produzir um documento que faria o aborto mudar de status legal: de crime passaria a direito.

E é aqui que é importante a atenção para o momento em que certas ações foram tomadas: no dia 7 de junho de 2005, a bombástica entrevista do ex-deputado Roberto Jefferson dá novo rumo à crise iniciada com um caso de corrupção nos Correios e mergulha o país em sua mais grave crise de corrupção já vista, o escândalo do "Mensalão". Ou seja, o início e desenvolvimento da crise dos Correios e do Mensalão se deu concomitantemente aos trabalhos da Comissão Tripartite.

Findos os trabalhos, a Comissão deveria entregar suas propostas para o trâmite normal junto ao Poder Legislativo. Surpreendentemente a entrega entrou em compasso de espera. O que haveria acontecido?

Pode-se ter a resposta a esta indagação ao tomarmos conhecimento do conteúdo de carta, datada de 08/08/2005, enviada pelo Presidente Lula a Dom Geraldo Majella, Presidente da CNBB. Nesta, podemos ler:

"Nesse sentido quero, pela minha identificação com os valores éticos do Evangelho, e pela fé que recebi de minha mãe, reafirmar minha posição em defesa da vida em todos os seus aspectos e em todo o seu alcance. Os debates que a sociedade brasileira realiza, em sua pluralidade cultural e religiosa, são acompanhados e estimulados pelo nosso governo, que, no entanto, não tomará nenhuma iniciativa que contradiga os princípios cristãos, como expressamente mencionei quando tive a honra de receber a direção da CNBB no Palácio do Planalto."

A decepção entre os que lutam pela liberação do aborto em nosso país foi tanta que o colunista Xico Vargas, escrevendo para a revista eletrônica "No Mínimo", relatava um telefonema da Ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial de Política para as Mulheres, à então deputada Jandira Feghali. O colunista, em um artigo de tom acusatório à Igreja, escreve sobre a voz embargada da ministra em conversa com a deputada. A ministra estava decepcionada, sentia-se derrotada em sua luta.

Para a ministra, aquilo era hipocrisia, presidente.

Mas... No dia 27 de setembro do mesmo ano, menos de 2 meses após enviar carta a Dom Geraldo Majella afirmando seus "princípios cristãos" e sua "identificação com o Evangelho", o presidente Lula deu aval à Ministra Nilcéia Freire para que entregasse a proposta elaborada pela Comissão Tripartite para a descriminalização do aborto.

Naquele momento, presidente, os bispos brasileiros souberam o que era hipocrisia.

Durante o ano de 2006, ano eleitoral, o tema do aborto ficou de lado. Apesar disto, no final do mês de abril, entre as diretrizes a serem seguidas em caso de Lula ser reeleito, estava a descriminalização do aborto. Nenhuma surpresa quanto a isto... Porém, em seu "Programa Setorial para as Mulheres", no qual estavam listadas as propostas para o mandato de 2007 a 2010, curiosamente a palavra aborto é referida apenas por 2 vezes em todo o documento. E, destas 2 vezes, em nenhuma é feita referência à descriminalização do aborto.

Ao lerem o seu Programa de Governo, presidente, seus correligionários souberam o que era hipocrisia.

Passadas as eleições, nas quais o aborto de forma alguma foi tema de relevância, e passados os primeiros percalços e escolha do ministério, o novo governo resolveu começar a governar. Como dito acima, apesar de em seu programa de governo não constar qualquer referência à descriminalização do aborto, no dia 28/03/2007 o Ministro da Saúde veio a público defender a idéia da liberação do aborto. O presidente Lula não o desautorizou, não o destituiu do cargo e nem enviou carta a algum bispo reafirmando seus "princípios cristãos" e sua "identificação com o Evangelho".

Para os eleitores, presidente, isto é hipocrisia.

Em contraste a essas indas e vindas características dos hipócritas, na Doutrina Católica podemos ler:

-- "(...) Não matarás criança por aborto nem criança já nascida." - Didaqué - primeiro Catecismo Católico, datado entre os anos de 90 a 100.

-- "[A vida] deve, pois, ser salvaguardada, com extrema solicitude, desde o primeiro momento da concepção; o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis." - Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 1965.

-- "O Magistério (...) reafirma de maneira constante a condenação moral de qualquer aborto provocado. Este ensinamento não mudou e é imutável." - Congregação para Doutrina da Fé - Instrução sobre o respeito à vida humana recente e a dignidade da procriação, 1987.

-- "2270. A vida humana deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta desde o momento da concepção." - Catecismo da Igreja Católica, 1992.

-- "Dentre todos os crimes que o homem pode realizar contra a vida, o aborto provocado apresenta características que o tornam particularmente grave e abjurável." - Encíclica Evangelium Vitae, 1995.

-- "A Tradição cristã (...) é clara e unânime, desde as suas origens até aos nossos dias, em classificar o aborto como desordem moral particularmente grave." - Encíclica Evangelium Vitae, 1995.


Isto, presidente, é coerência. É como Dom Rafael Llano Cifuentes escreveu: " Não somos hipócritas. Nem o fomos. Nem o seremos. Somos coerentes."

Também coerente com sua Fé foi São Policarpo. No ano de 156, ante a insistência para que renegasse Jesus Cristo, o Bispo de Esmirna assim respondeu:

"Faz 86 anos que sirvo a Deus e nunca Ele me fez mal algum. Como poderia blasfemar o meu Redentor?"

Por esta firmeza demonstrada ante o perigo iminente, o santo bispo sofreu o martírio.

Isto é manter os "princípios cristãos". Isto é "identificar-se com o Evangelho". Isto é coerência, presidente.

E agora podemos perguntar: quem é hipócrita, presidente?

Um comentário:

Marcel disse...

Ótimo post William!
Muito esclarecedor.
Continue assim!
Parabéns!!!